sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Levava a vida que sempre idealizara para si. Seu marido, sua filha, sua casa, seu emprego. Levou algum tempo, exigira alguma paciência, um pouco de sacrifício, mas afinal, para se chegar a esse nível de felicidade, é necessário um certo esforço. Dedicação. Mas valera a pena. Agora estava segura. Segura dentro dos murros que erguera para sua vida. Feitos com o cimento da persistência. Os mais resistentes e que mantinham as decepções a distância. Pelo menos era o que ela pensava, até começarem as brigas. Não lembrava bem quando nem porque haviam começado mas o fato é que ela e o marido já não estavam se entendendo tentou em vão contornar a situação, mas quanto mais tentava, mais as coisas se complicavam. Estava assustada. Nunca havia passado por uma situação parecida. Não estava preparada. Então chegou o dia. Ele teria que ficar fora por uma quinzena a trabalho. Combinaram então, que este tempo seria usado para que refletissem e que quando ele voltasse, decidiriam o que fazer. Ela nunca havia passado uma única noite sequer afastada dele desde o casamento e com as brigas, ficava ainda mais difícil suportar o afastamento. Pela primeira vez, percebeu que seus muros não eram tão fortes quanto pensava. Por isso resolveu sair naquela noite. Uma depois dele partir. Conseguiu convencer sua mãe a ficar com a filha alegando ter de ajudar uma amiga e saiu sem saber exatamente para onde. Dirigiu sem rumo por algum tempo até que parou em frente aquele bar esquisito. Não deu muita atenção as pessoas e a aparência do lugar. Precisava beber algo. Deixar que o álcool descesse seu poder temporariamente tranquilizador sobre sua angústia. Entrou e pediu uma cerveja decidida a embebedar-se. Já fazia uma hora e algumas garrafas que estava lá quando percebeu aquele rapaz lhe observando. Não sabe bem o porque, se por causa da embriaguez ou por causa da fragilidade em que se encontrava, mas sorriu. Quando  deu-se conta, já estavam conversando animadamente em uma mesa. Ele parecia alguns anos mais jovem, mas era divertido e parecia ser uma boa pessoa. Pelo menos para dividir alguns copos de distração. Com o passar das horas já conversavam como se fossem amigo íntimos. Ela sentia-se cada vez mais encantada por aquele rapazinho de personalidade tão magnética. Então aconteceu. O beijo. Forte e voluptuoso como são os beijos das pessoas embriagadas. Em algumas horas já faziam um ao outro declarações apaixonadas. Mas a claridade do dia vinha finalmente conseguindo derrubar a mágica escuridão da noite e ela lembrou-se da filha. Despediu-se com um certo pesar, dirigiu de volta para casa, não sem antes prometer a ele que voltaria a vê-lo. Realmente não resistiu e acabou encontrando-o mais vezes e a cada vez surpreendia-se mais com o jeito envolvente daquele "quase-menino" que se dizia completamente apaixonado por ela. Ela mesma já não sabia mais o que estava acontecendo, então resolveu proibir-se de encontra-lo e pediu que não a procurasse mais. Sua parca força de vontade durou até aquela sexta-feira, quando não aquentando mais ligou marcando um encontro. Encontraram-se e nada precisou ser dito. Duas horas depois ela estava sentada em uma cama ao seu lado. Olhava para ele que dormia suavemente como é o sono das pessoas realizadas. Demorou-se a olha-lo e quase desejou que as coisas fossem diferentes, mas seu tempo havia acabado e sabia o que tinha que ser feito. Respirou profundamente enquanto calçava os sapatos, levantou-se e foi em direção a porta. Olhou-o mais uma vez antes de sair e pensou que gostaria de beija-lo novamente, aliás, gostaria de tê-lo beijado muito mais nos últimos dias, mas ficou aliviada por ele estar dormindo. Assim seria mais fácil, não queria ter  nenhuma recordação de um último gesto ou olhar que futuramente a fizesse achar que tomara a decisão errada. Precisava ter certeza sempre. Acreditar na razão sobrepondo-se a emoção. Havia sido assim desde o início. Fechou a porta como quem fecha um livro depois de ler, daqueles que gostaríamos que houvessem mais alguns capítulos. Mas este terminara. Era hora de voltar para dentro dos muros. Mas com certeza teria que arranjar mais cimento. 

Um comentário:

  1. Meu amigo, sempre soube das tuas tendências a escrita, mas esse texto, francamente, fala muita coisa do que eu enfrentei (ou ainda enfrento) lutando diariamente com um monstro que existe dentro de mim.
    Obrigada pelas palavras.
    As vezes, a decisão correta não é a mais fácil...
    Bjss Tuca!

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