Amavam-se profundamente. O simples fato de um enxergar o outro consumia com qualquer outra necessidade que sua condição humana lhes impusesse. Nunca brigavam. Os amigos costumavam dizer que morreriam juntos. Eles também. Era realmente um grande amor. E como quase todo grande amor, um dia terminou. Ninguém nunca soube a razão. Talvez nem eles. O fato é que jamais se reconciliaram. Passados os anos, ele, de proprietário de imóvel passara a frequentador assíduo de bares, com cadeira reservada todas as noites. Ela, construíra uma casa. Ele ao contrário do repassar das garrafas em sua mesa, jamais concretizara o que agora chamava de "os velhos sonhos distantes". Ela que não esperara muito da vida, que nunca se preocupara muito com o futuro chegara muito mais longe do que poderia imaginar, alcançando a independência financeira. Ele devido as orgias de sua vida cada vez mais desregrada, perdera quilos e ganhara filhos, muito embora nunca tivesse sido comunicado da existência de nenhum desses rebentos. Dizia, sem a mínima noção do fato, que uma vez há muito tempo, pensara em ter filhos mas que perdera a vontade junto com algo mais que não quis dizer o que era e além disso, mais uma festa estava começando e nostalgia era coisa para imbecis. Ela estava casada a quase dois anos quando soube da notícia de sua morte, não soube dizer bem o que sentiu naquele momento, mas teve que desviar os olhos do marido por alguns instantes. Os amigos contaram que ele parecia meio melancólico na noite de sua morte, vinte e quatro de maio daquele ano e que apesar dos protestos de todos, recusara-se, sem dar nenhuma explicação, a ir a mais uma de suas costumeiras orgias retirando-se do bar onde encontravam-se. durante aquela madrugada, após acabar sozinho com uma garrafa inteira de uma bebida destilada qualquer, adormecera e tivera um sonho. Subia uma montanha muito íngreme, já a escalava a bastante tempo e perguntava-se porque nunca alcançava o topo, quando olhou para cima e percebeu que uma grande pedra se soltara provocando uma enorme avalanche. Tentou correr, mas já era tarde, acabou sendo soterrado pelas pedras que na verdade eram seu próprio travesseiro que espremia contra o rosto enquanto dormia. Asfixia. Esse foi o laudo médico. Acordou sentado em uma nuvem, olhando para o próprio velório na capela do cemitério logo abaixo. Quando apercebeu-se da situação, pensou que morrera sem concretizar nada do que sonhara, mas não sentia-se triste por causa disso, pois acreditava que sonhos são para serem sonhados, pois quando concretizados perdem o seu valor de sonhos para ganhar o valor da verdade podendo nos deixar sem objetivos. Apesar de saber que existiam os que acreditavam que sonhos realizados podem elevar-nos ao cargo de heróis de nós mesmos fazendo com que a figura no espelho apresente-nos um sorriso de orgulho todas as manhãs para o resto de nossa vidas. Mas esses eram apenas devaneios de um boêmio falecido. Começou a vasculhar com os olhos a sala onde acontecia o seu velório, curioso para saber quem tinha comparecido, espantou-se ao ver em meio aos seus amigos de orgias, jogadores de sinuca e alcoólatras inveterados, a presença dela, sentada a um canto com duas crianças pequenas, provavelmente seus filhos e pensou então se aquele amor que o acompanhara durante toda sua vida e que ainda agora persistia, havia sido a causa de seu declínio ou se a sua óbvia tendência ao declínio é que acabara com aquele amor. de repente sentiu vontade de ir embora, levantou-se decidido, mas antes de virar-se em definitivo, olhou mais uma vez para baixo e riu ao ver o dono do bar que frequentava, achando estranho seu comparecimento, pois morrera sem pagar a conta.
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